Viajar, comer, repetir — 7 destinos gastronômicos

Atualizado em 05/06/2026

Viajar pela gastronomia (e pelo vinho também, mas isso é assunto para outro post), na minha opinião, é uma das melhores formas de conhecer um lugar. Não falo de comer tudo que vem pela frente, até porque na época das canetas emagrecedoras cada vez aprendemos a comer menos e melhor (não é o meu caso, sou do tipo que come pouco, mas é o que andei lendo por aí) — falo da curiosidade de provar novos sabores, da disposição para sentar onde os locais sentam e da priorização de colocar alguns passeios gastronômicos na frente de passeios mais turísticos, afinal nem sempre temos tempo para tudo.

Na minha trajetória de viagens algumas cidades e regiões me pegaram literalmente pelo estômago – algumas delas foram inclusive planejadas com esse intuito. Hoje queria dividir com vocês, e quem sabe motivá-los, a visitar algum lugar no mundo pela experiência ao paladar que oferecem. Gostararm da ideia? Então vem comigo, separei 7 destinos internacionais embora minhas experiências viajando pelo Brasil também merecessem um artifo similiar. Quem sabe?

7 destinos onde a comida foi um dos motivos da viagem

Tailândia – Sudeste Asiático

Bangkok já seria destino suficiente para qualquer viagem gastronômica — mas nessa eu fui mais longe, literalmente. O roteiro incluiu o sul da Tailândia e também o Camboja e o Vietnã, o que reforçou a percepção de como cada país, apesar de vizinhos, tem uma identidade de sabores completamente própria.

Na Tailândia, a rua é o restaurante. É nas calçadas, entre cheiros de erva-cidreira, leite de coco e camarão seco, que a restauração acontece. Um pad thai feito na hora em wok flamejante é uma experiência tão local quanto sensorial. No início, o street food pode intimidar — e foi assim que começámos: pelo Mercado de Chatuchak, pelo Asiatique The Riverfront, o mercado noturno à beira do Rio Chao Phraya, em frente ao Calypso Cabaret e por restaurantes mais simples.

thai street food
Photo by Tony Wu on Pexels.com

Tudo isso antes de ganhar confiança e partir para as estruturas montadas nas cidades praianas — de Phuket às ilhas de Phi Phi, praticamente cozinhas a céu aberto onde o peixe saído do mar naquele dia é o cardápio. Um ou outro restaurante mais sofisticado entrou no roteiro, mas na época vários se mostraram muito turísticos — era visível que os locais não estavam por lá. A exceção que ficou na memória, e que ainda está de portas abertas, é o Baank Hanitha Thai Cuisine.

Istambul – Turquia

Istambul é fascinante do ponto de vista cultural, turistico e também gastronômico — não porque tenha a melhor comida do mundo, mas porque é uma fusão de uma cozinha que mistura influências do Médio Oriente, do Mediterrâneo e da Ásia Central — reflexo direto do que foi o Império Otomano.

O Bazar das Especiarias é uma aula: açafrão, sumagre, za’atar, urfa biber — ingredientes que aparecem nos pratos de formas que surpreendem sempre. E o sanduíche de peixe comprado num barco ancorado na Ponte Gálata, na volta para o hotel — simples, barato, memorável.

No último dia de uma viagem de cinco noites, indo em busca do Kebab perfeito e de tantas outras delícias, escolhi cruzar para o lado asiático e almoçar em Kadikoy — era meu aniversário, e quis celebrar num restaurante especializado em cozinha otomana. O que encontrei foi muito além do restaurante: Kadikoy tem ruas que parecem um mercado a céu aberto, com lojas de especiarias, peixarias, cafés e uma longa rua de restaurantes. Era como se um pouco de tudo que já havia visto em Istambul tivesse sido reunido num único bairro. O Çiya Sofrasi foi o destino — e valeu cada minuto de barco pelo Bósforo.

Prato com feijão preto e molho branco, acompanhado de carne em molho e arroz branco.
No detalhe, além do arroz, cordeiro com molho de cerejas e com yogurt.

Praticamente todos os dias parei numa loja de doces. Impossível resistir aos doces turcos. Nem o biscoito de polvilho turco — muito doce, diferente — consegui recusar. Faz parte da experiência.

Leia o roteiro completo: Istambul e o passeio em Kadikoy no blog

Copenhagen – Dinamarca

Fui pela Nova Cozinha Nórdica, que mudou o mapa-múndi da gastronomia e tem Copenhagen como seu epicentro, e todas minhas expectativas foram atendidas.

O Noma — eleito inúmeras vezes o melhor restaurante do mundo — não precisa de apresentação. Mas o que me encantou foi descobrir que a filosofia por trás dele se espalhou pela cidade inteira: ingredientes de sazonalidade rigorosa, produtos locais, menus construídos com o que a terra e o mar têm a oferecer naquele momento. Aspargos em toda parte, ruibarbo em dezenas de sobremesas diferentes, peixe fumado com técnicas que parecem simples e são milimetricamente precisas.

Na pesquisa de restaurantes, a lógica foi clara: nada de italiano, francês ou especializado em carne — a ideia era comer Copenhagen, não importar sabores que se encontram em qualquer capital. O Cofoco e o Radio foram algumas das escolhas, ambos com menus baseados na estação.

Prato com pimentões verdes recheados com ovos e temperos.
Restaurante Radio – pratos do menu

Mas nem só de menus de restaurantes especializados em cozinha nórdica vive essa viajante. No terceiro dia, abrimos exceção para a Pizzaria Orgânica Neighbourhood, no bairro de Vesterbro — pizza com ingredientes locais, sabores bem exóticos, mas completamente dentro do espírito da cidade. No Papiroen, um mercado coberto de comida de rua, previe os famosos Smørrebrød (base de pão preto, chamado rugbrød, sobre o qual se colocam os mais variados ingredientes) e xonei. Até hoje imito e é uma das lembranças mais vívidas até porque meus amigos dinamarqueses comem então posso provar: mais local impossível!

Três montinhos de sanduíches na chapa, contendo ingredientes como molho, alcaparras, fatias de limão e ervas, acompanhados de uma salada de repolho e cebola, servidos em um prato branco.
Almoço no Papiroen

O Mercado Gastronômico de Torvehallerne foi uma das paradas mais marcantes: produtos de hortifruti, carnes, peixes e cafeterias num espaço bonito e muito bem cuidado. É o tipo de mercado que faz você entender a sazonalidade de um país sem precisar ler nada sobre ela — os produtos falam por si.

Quer ver nosso roteiro na cidade? Comece por aqui! Roteiro: Dia 1

San Sebastián – País Basco – Espanha

Há uma narrativa fácil sobre San Sebastián: a cidade com mais estrelas Michelin per capita do mundo, o destino para quem quer experiências gastronômicas de alto nível, mas os restaurantes estrelados ficaram para uma próxima visita.

O que mais me encantou foi o que acontece nas ruas: o pintxo. O pintxo basco é uma arte. Pequenas fatias de pão com combinações elaboradas em cima, espetadas com um palito, alinhadas nos balcões dos bares por toda a cidade. Você entra, pede um txakoli bem fresco — aquele vinho branco que os garçons servem de uma altura exagerada para oxigenar a bebida — aponta para o que quer, e come ali mesmo, em pé ou na calçada, na escadaria da Igreja. Noites de verão embaladas por uma arquitetura e toda uma atmosfera que acho que jamais esquecerei!

No bairro de Gros, o Hidalgo 56, na época, foi uma das surpresas, depois descobri que o dono tem uma estrela Michelin no currículo. Fui no verão e foi perfeito — a cidade é informal, o clima familiar e animado. Você vai de bar em bar: no Centro, o Meson Martin e o La Spiga; no centro histórico, o Atari com seus ótimos drinks, o clássico Casa Gandarias, e o La Viña para terminar com a famosa torta de queijo.

Torrada com guarnição de enguias, pimentões e molho verde.
Pinxtos no Hidalgo 56

Às vezes a melhor gastronomia do mundo é uma tortilla de bacalhau num balcão de madeira, num bar em uma ruela da cidade velha.

Leia nosso roteiro completo: San Sebastián e Biarritz no blog

Uma dica: A viagem por San Sebastian combina muito com Biarritz, é um mergulho no Pais Basco. #ficaadica.

Sicília – Itália

Tenho uma relação particular com a Itália — morei em Roma por anos, então a Itália continental é quase casa, então escolhi a Sicília para ser a representante italiana nesta seleção, afinal muitos italianos afirmam que a Sicília tem a melhor cozinha do país, e depois de ouvir isso algumas vezes não poeria deixar de ir até lá conferir.

Foram sete dias rodando a ilha de carro, de Palermo a Catania, passando por Erice, Agrigento, Siracusa, Noto e Taormina. E entendi. A Sicília é uma sobreposição de civilizações no prato. Gregos, árabes, normandos, espanhóis — cada povo que passou pela ilha deixou alguma coisa. O resultado é uma cozinha sem paralelo: a pasta alle sarde com passas e pinhões que parece estranha e é perfeita, o pesto trapanese feito com tomates frescos e ricota, a pasta al nero di sepia, os arancini dourados por fora e cremosos por dentro.

Em Erice, jantamos com meia pensão incluída quase por necessidade — era noite, o borgo estava fechado, um vento alucinante cortava as ruelas medievais. O jantar foi uma revelação: pesto trapanese e um Nero d’Avola que ficou guardado na memória.

O Mercado de Ballarò em Palermo é um dos mais vivos que já visitei. E os doces — o cannolo siciliano, a cassata, o sorvete de ricota e o chocolate de Modica, feito sem manteiga, completamente diferente de tudo — são um capítulo à parte.

Leia o roteiro completo: Sete dias de carro pela Sicília no blog

Paris – França

Paris é um clichê, sim! E justo porque continua sendo incrível, o que diz muito sobre a cidade. O ponto alto de uma de minhas viagens foi um duas estrelas Michelin – o La Scène Thélème — reservado com preço fechado num site de ofertas em restaurantes de excelência. Ao lado do Arco do Triunfo, uma descoberta. Almocei lá, e foi uma daquelas experiências que ficam. Não pela pompa, mas pela precisão: cada detalhe pensado, cada sabor equilibrado ao milímetro, um serviço que parece invisível de tão afinado. É o tipo de refeição que se repassa mentalmente nos dias seguintes.

Mas Paris não é só isso — são também os bistrôs, os bouillons e os bars a vinho. O bistrô é aquele local pequeno e intimista, com mesas coladas uma na outra, cardápio curto escrito à mão no quadro-negro, fiel ao que a estação manda. O Bistrot Paul Bert é um bom exemplo, já bouillon é outra coisa são espaços maiores, barulhentos, com decoração belle époque, surgidos no século XIX para alimentar trabalhadores com comida francesa clássica a preços baixos. O Bouillon Chartier, aberto desde 1896, é o mais famoso: centenas de pessoas por dia, serviço rápido, cardápio sem surpresas e uma conta que raramente assusta.

Os bars a vinho são os meus preferidos em Paris. A cidade tem uma cena vibrante, com pequenos endereços onde se bebe muito bem e se come uma tábua de frios que já seria prato principal em qualquer outro lugar. O Baravin é um bom exemplo. A dica prática: a TimeOut Paris atualiza regularmente uma lista dos melhores bars a vinho da cidade — vale consultar antes de viajar.

E há ainda um prazer simples que quem visita Paris não deve ignorar: os supermercados. O Monoprix e as Galeries Lafayette Gourmet são destinos em si — carpaccios embalados a vácuo, patês de todos os tipos, queijos em abundância, pães frescos e vinhos a preços que envergonham qualquer restaurante. Montar um piquenique ou um jantar improvisado no hotel com o que se encontra nas prateleiras é, muitas vezes, uma das refeições mais memoráveis da viagem. Paris democratiza a boa mesa até no supermercado.

Uma variedade de pratos, incluindo mexilhões, uma torta, carne assada, caracóis, salada com atum, e sobremesas como macarons. Há também queijos, pães e frutas dispostos em uma mesa escura.
Imagem: praticabr.com

E para coroar, há a boulangerie, a pâtisserie e, cada vez mais, a chocolaterie. É o único lugar onde exagero nos doces sem culpa: croissant no Paul logo de manhã, macarrons na Ladurée, um éclair ou financier no Yann Couvreur, e chocolate de verdade na Pierre Marcolini. Paris faz isso com a gente e a verdade é que, uma vez que se prova, é difícil resistir em qualquer outro canto da França.

Lima e Cusco – Peru

O Peru é um dos países que mais me surpreendeu à mesa, e olha que eu já havia ouvido muito a respeito e a expectativa era altíssima. A gastronomia peruana não é uma moda — é uma identidade nacional.

Lima tem camadas. O LarcoMar — o shopping suspenso sobre o oceano Pacífico, no bairro de Miraflores — é um bom ponto de partida: é lá que fica o Tanta, um dos restaurantes do chef Gastón Acurio, com vista para o mar e uma cozinha peruana ao estilo confort food e acessível, perto dali, o Calla, numa área boémia com frente para o oceano, surpreendeu pelos ceviches diversos em ambiente animado que misturava restaurante e balada (ótimo para um jantar).

Para entender Lima além do turístico, o Salón Capon no bairro chinês é obrigatório: é o endereço certo para a cozinha chifa, a fusão peruana-chinesa que diz muito sobre a história de imigração do país. Na linha mais tradicional o Pescados Capitales tamém é um excelente representante.

O ponto alto de Lima foi o Central (meu primeiro Michelin), do chef Virgilio Martínez. O menu de degustação que procamos era uma viagem vertical pelo Peru: cada prato representa uma altitude diferente, desde o oceano até o altiplano andino.

Prato do menu de altitude do Restaurante Central em Lima
Prato do menu de altitude do Restaurante Central em Lima

Em Cusco, a altitude faz parte do sabor — e o Chicha, também de Gastón Acurio em pelno casarão histórico na Plaza Regocijo, a um quarteirão da Plaza de Armas, foi uma bela experiência. O Limo completou as refeições em Cusco com mais um mergulho na cozinha de autor peruana e mesmo Aguas Calientes, já com Machu Picchu na bagagem o 3 de Mayo foi uma surpresa.

Do ceviche ao anticucho, da mazamorra morada ao lomo saltado, passando pela causa, o ají de gallina, a pachamanca e o triple — aquele sanduíche de abacate, ovo e tomate que passou a fazer parte do meu repertório — o Peru é um país cheio de cores e sabores que valem muito a viagem.


E você, viajaste pelo estômago também? Quero saber, deixa nos comentários o teu destino e/ou prato favorito, vou adorar saber (e quem sabe provar).


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